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Usina de biogás da Raízen em Guariba (SP) (Raízen/Divulgação)
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As negociações entre Cosan e Shell para reforçar o caixa da Raízen entraram em compasso de espera e ampliaram as incertezas sobre o futuro da maior produtora de açúcar e etanol do país e uma das principais distribuidoras de combustíveis do Brasil.
Com dívida bruta de cerca de R$ 73 bilhões e valor de mercado próximo de R$ 7 bilhões na B3, a companhia enfrenta forte deterioração financeira.
Em 12 meses, suas ações acumulam queda superior a 60%, refletindo a preocupação de investidores com o elevado endividamento, margens pressionadas e a necessidade de um plano robusto de capitalização.
Propostas divergentes
A Shell indicou a intenção de realizar um aporte de R$ 3,5 bilhões. A proposta envolveria ainda uma contribuição adicional de R$ 500 milhões da Aguassanta, family office de Rubens Ometto, principal acionista da Cosan. A expectativa da petroleira britânica seria que a Cosan acompanhasse o movimento com valor equivalente.
Caso a holding brasileira não participe do aumento de capital, sua fatia na joint venture seria diluída, abrindo caminho para que a Shell amplie sua participação e eventualmente assuma o controle da operação.
Pessoas próximas às tratativas afirmam, porém, que nunca esteve nos planos recentes da Cosan realizar novo aporte relevante na Raízen. Em 2025, a companhia levantou cerca de R$ 10 bilhões em uma capitalização que contou com recursos do BTG Pactual e da gestora Perfin.
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À época, a administração informou que os recursos seriam destinados exclusivamente à redução do endividamento da própria Cosan, e não ao reforço de caixa de subsidiárias.
Plano mais amplo fracassou
Antes do atual impasse, foi discutido um plano mais abrangente de reestruturação. A proposta envolvia um aumento de capital superior a R$ 10 bilhões, com participação de Cosan, Shell, BTG, Perfin, Aguassanta e outros investidores.
O desenho incluía a separação da Raízen em duas empresas: uma concentrando os ativos de açúcar e etanol e outra reunindo a área de distribuição de combustíveis.
A divisão buscaria destravar valor e facilitar a entrada de novos investidores. As conversas, no entanto, não avançaram.
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Pressão dos credores
O debate entre as sócias ocorre sob crescente pressão de bancos e detentores de títulos no exterior.
No fim de fevereiro, credores enviaram cartas às acionistas defendendo uma capitalização substancial, que poderia alcançar até R$ 25 bilhões, como condição para estabilizar a estrutura financeira da empresa.
A cifra é significativamente superior aos valores atualmente em discussão. Parte da estratégia ventilada envolveria negociar com bancos e bondholders a conversão de dívida em ações, com desconto relevante, reduzindo a alavancagem.
Especialistas avaliam que um aporte limitado pode não ser suficiente para restaurar a confiança do mercado, sobretudo em um cenário de juros ainda elevados e volatilidade nos preços de combustíveis e commodities agrícolas.
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Risco assimétrico
O impasse também evidencia diferenças estratégicas entre as sócias. Para a Shell, gigante global com operações diversificadas e ativos de exploração e produção fora da estrutura da Raízen, uma eventual reestruturação judicial teria impacto restrito à joint venture.
Já para a Cosan, cujo portfólio está concentrado no Brasil, a deterioração da Raízen representa risco mais direto de contaminação financeira e reputacional.
Se não houver acordo sobre um plano de capitalização mais amplo e aceito pelos credores, cresce a possibilidade de a companhia recorrer à recuperação judicial para renegociar suas obrigações.
Procuradas, Cosan e Shell não comentaram oficialmente as negociações até a publicação deste texto.
O desfecho das tratativas será decisivo não apenas para o futuro da Raízen, mas também para a dinâmica do setor sucroenergético e de distribuição de combustíveis no país.
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